ENTREVISTA PARA O BLOG DO JOSÉ CRUZ!

Está lá, o link é : http://blogdocruz.blog.uol.com.br/

“José Cruz cobre há mais de 20 anos os bastidores da política e economia do esporte, acompanhando a execução orçamentária do governo, a produção de leis e o uso de verbas estatais na área esportiva. Esteve nas Olimpíadas de Seul-1988 e Sydney-2000 e trabalhou no Correio Braziliense, onde foi subeditor de Esporte, e no Jornal de Brasília”.

UM ABRAÇO AO AMIGO JOSÉ CRUZ!

FISCHER.

Palavra de atleta: Eduardo Fischer

Atleta do Esporte Clube Pinheiros, de São Paulo, o catarinense Eduardo Fischer abre a série de entrevista com destaques do esporte nacional.

Aos 29 anos, agora advogado, mas ainda competindo nas provas de 50m e 100m peito, Fischer é um dos orgulhos da natação por seu currículo e pela coragem de analisar o esporte, fato raro entre atletas em atividade.

Mais: com base no que conheceu, mundo afora e na realidade nacional, oferece sugestões para o desenvolvimento da modalidade. Fala sobre treinamento, clubes, recursos e olimpíadas.

Ele participou das Olimpíadas de Sydney e Atenas e seu melhor resultado internacional foi a medalha de bronze obtida no Mundial de piscina curta, em 2002.

José Cruz – Você é um atleta com origem em clube. Como avalia a importância dessa estrutura na formação de grandes competidores?

Eduardo Fischer – Diferentemente dos Estados Unidos, a maior potência da natação mundial, nós aqui no Brasil não temos as universidades como incentivadora e formadora de atletas de alto rendimento, mas possuímos, sim, os clubes. Aliás, pelo menos na natação, se não fossem os clubes, mais da metade de nossos grandes atletas estariam perdidos. O clube não é só formador, mas também mantedor de atletas de nível internacional. E é justamente por isso, que a iniciativa pública deve trabalhar em parceria com os clubes, dando incentivos fiscais e não criando óbices burocráticos, como sabemos que existem. Desde o início da minha carreira profissional, onde saí do Joinville Tênis Clube, passando por Minas, Vasco, Unisanta e atualmente o Pinheiros, apenas a Unisanta não foi clube, mas foi e é o Pinheiros que sem dúvida oferece a melhor estrutura e mais me impulsionou.

José Cruz – Com sua experiência, que sugestão oferece para massificar a natação no Brasil?

Eduardo Fischer –
Não é tarefa fácil. Piscina não é igual quadra de vôlei ou campo de futebol que basta fazer algumas e chamar a criançada para jogar. Demanda mais dinheiro para construir e principalmente para manter. Os clubes, via de regra, já estão cheios e comprometidos financeiramente com as equipes e não conseguem fazer “peneiras” como é comumente visto no futebol. As academias visam o lucro. E as poucas piscinas públicas geralmente não possuem estrutura adequada (aquecimento) ou profissionais capacitados e interessados para fazer esse papel. Penso que deveria existir uma parceria entre o poder público e a iniciativa privada. Uma empresa que recolha R$ 1 milhão por mês em ICMS, por exemplo, poderia ser procurada para trocar o pagamento desse tributo na construção e manutenção de uma piscina aquecida. Assim o governo estadual abre mão de uma parcela da arrecadação e a empresa se engaja diretamente ao esporte, fornecendo pessoal capacitado.

José Cruz – A escola tem participação importante nesse processo? Como?

Eduardo Fischer – Na minha opinião não tem. Você já viu escola com piscina? Natação na grade curricular de educação física do ensino primário e médio? Infelizmente não chegamos lá ainda, mas quem sabe um dia.

José Cruz – Você acredita que para termos competidores com chances de pódios internacionais é importante treinar no exterior, devido ao maior número de eventos? Você chegou a treinar em outro país?

Eduardo Fischer – Treinar fora é importante. Pode ser muito bom para alguns e muito ruim para outros. Depende de atleta para atleta. Antes, a vantagem era enorme. Hoje, com o intercâmbio que existe entre os treinadores do mundo inteiro, essa vantagem já não é mais tão grande. Acredito que seja melhor sim, pois por mais que os treinos sejam muito parecidos, a estrutura ainda é melhor. E, lá fora, você é obrigado a respirar, comer e dormir natação, um pouco diferente daqui. Quando fui medalha de bronze no mundial de curta em 2002, fui convidado por um treinador americano para treinar nos estados unidos. Mas como na época eu já estava no 4º ano da faculdade de Direito, ganhando um bom patrocínio e melhorando tempos a toda hora, optei por ficar no Brasil.

José Cruz –
Qual a sua opinião sobre centros de treinamentos para atletas de alta performance?

Eduardo Fischer – É sem dúvida um sonho do nosso esporte. Um local com uma estrutura de primeiro mundo, com piscinas, salas de musculação, salas de fisioterapia, piscina para filmagens, dormitórios, refeitórios, áreas de lazer, etc, onde a seleção brasileira pudesse fazer “training camps” periódicos, seria perfeito. Mas acho que isso ainda vai demorar a existir. E se um dia existir, alguém vai querer ganhar alguma coisa com isso, seja dinheiro público ou votos. A verdade é que eu não sei se nosso país está preparado para construir e manter algo dessa magnitude. Nós mal conseguimos manter a piscina do Pan, imagina um centro de excelência.

José Cruz – A propósito, qual a sua avaliação sobre as instalações do Pan-Americano, que não estão sendo usadas com freqüência?

Eduardo Fischer – Posso falar com propriedade apenas pelo parque aquático, que é a instalação que conheço de perto e acompanho sua manutenção. Está jogada às traças. É usada uma única vez por ano, no Troféu Brasil, e depois fica esquecida. Ninguém quer manter aquilo, é muito, muito caro. Não dá retorno financeiro. Cada ano que apareço lá para competir existe um problema novo. Na última vez, foi a piscina de aquecimento que estava vazando e por isso interditada. Um bem imóvel ou móvel sem cuidado, estraga. E depois que estraga ninguém que pagar para consertar. É assim que as coisas funcionam no Brasil. Uma pena.

José Cruz – Nossos técnicos, de um modo geral, estão atualizados a ponto de preparar um campeão olímpico?

Eduardo Fischer – Sim, creio que sim. Mas ainda acho que o treinador de um campeão olímpico no Brasil é pouco reconhecido e valorizado. Se não é o clube desse treinador ajudá-lo, ninguém dá a mínima. Afinal, até o atleta às vezes não é devidamente valorizado, imagina seu treinador.

José Cruz – Você é contemplado com algum recurso oficial (Bolsa Atleta, Lei de Incentivo ao Esporte, etc

Eduardo Fischer –
Sim, o Bolsa Atleta. Acho um programa bastante interessante e que me deu um grande suporte em uma fase difícil da minha carreira, quando estive lesionado.

José Cruz –
É muito caro manter um atleta de seu nível em treinamento e competição?

Eduardo Fischer – A expressão “muito caro” é relativa. Às vezes, o que é muito caro para mim, não é muito caro para outras pessoas. A verdade é que se você comparar com o futebol ou com o vôlei, o preço necessário para manter um nadador do mesmo nível é ridículo. Hoje um atacante regular de um time de futebol no Brasil ganha o que? 50 mil reais por mês? Com esse mesmo valor mensal, você mantém pelo menos 5 atletas finalistas em campeonato mundial. E olha que eu estou falando em top 10, os 50 mil no futebol é para um top 100 e olha lá. A verdade é que o jogador de futebol não precisa desses 50 mil para treinar, esse esporte está supervalorizado. Já na natação, a gente precisa gastar para melhor treinar. Pergunte ao Cielo quem paga sua alimentação e hospedagem nos Estados Unidos.

José Cruz – Você acredita que a olimpíada no Brasil ajudará a desenvolver o esporte?

Eduardo Fischer –
É claro que quando um país sedia uma olimpíada, existe um grande desenvolvimento no esporte daquele país. Mas o Brasil não está preparado para sediar um evento desse tamanho. Tudo será superfaturado, os gastos serão maiores do que o necessário, as instalações após os Jogos serão esquecidas e ninguém conseguirá mantê-las. Sem dizer que o Brasil precisa de dinheiro em coisas muito mais importantes do que Jogos Olímpicos. Que tal pegar esses R$ 33 bilhões necessários para o Rio 2016 e aplicá-los em saúde e educação? O problema é que saúde e educação não dão voto. “Elefante branco”, usado bem bonito uma única vez é que dá voto. O povo brasileiro gosta de “oba-oba”, gasta de fantasiar as coisas, achar que um evento bem glamoroso salvará nossa imagem mundial. Eu sou atleta olímpico. Amo o esporte. Queria muito uma olimpíada no Brasil. Mas enquanto pessoas morrerem em filas de hospitais e 10% da população for analfabeta, esses R$ 33 bilhões possuem um melhor destino.

UM ABRAÇO AO AMIGO JOSÉ CRUZ!

FISCHER.

About Eduardo Fischer

Eduardo Fischer é catarinense e natural de Joinville. Ex-Atleta Olímpico de natação da seleção brasileira e medalha de bronze no Mundial de Moscou, Fischer defendeu o país em dois Jogos Olímpicos (Sydney/2000 e Atenas/2004), 6 Campeonatos Mundiais e 1 Pan-Americano (Prata e Bronze). Bacharel em Direito e Advogado pela OAB/SC, Eduardo é especialista em Direito Empresarial pela PUC/PR e em Direito Tributário pela LFG/SP. Atualmente aposentado das piscinas, trabalha com Consultoria Tributária em um respeitado escritório de Advocacia (CMMR Advogados).

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