O tal do “Legado Olímpico”

Desculpe… Mas não consigo!

 

Sou Atleta Olímpico, amo o esporte e considero as Olimpíadas o evento mais sensacional do mundo! Mas não dá…

Respeito os entusiastas, otimistas ou cegos (metaforicamente falando), mas eu não tenho condições de concordar/aceitar a escolha do Brasil como sede.

Aliás, cada dia que abro meu navegador na internet, fica mais claro que o Rio 2016 é um erro, não vai dar certo e está arquitetado na corrupção.

Sem dizer os inúmeros casos de atletas pré-convocados (ou até mesmo já convocados), treinando em condições precárias e deploráveis, sem qualquer característica “olímpica” em sua preparação.

Juro! Eu até que tentei… Mas infelizmente (ou felizmente) não consigo ficar animado com os Jogos Olímpicos no Brasil. Não consigo fechar os olhos para os inúmeros problemas e superfaturamentos, e achar que os Jogos serão uma festa.

Será uma festas para os políticos, empreiteiros, dirigentes, lobistas e outros envolvidos. Mas para o povo? Um resquício de elefantes brancos insustentáveis, rombos financeiros gigantescos e a certeza que não haverá qualquer benefício ao esporte de base.

A última: “A Tecnosolo, empreiteira responsável pelo velódromo, a obra mais atrasada das Olimpíadas, jogou a toalha e informou que não tem condições de prosseguir à frente do empreendimento (…) A obra será concluída pela nova empresa com o dinheiro de um termo aditivo de R$ 24,9 milhões, aprovado em dezembro, que fez com que o velódromo, antes orçado em R$ 118 milhões, passasse a custar R$ 143 milhões”.

Esse não é o primeiro e nem o último caso de obras que irão custar MUITO mais do que deveriam. E eu lamento muito mesmo, mas não tenho capacidade (ou ingenuidade) para acreditar que isso não é superfaturamento, corrupção ou sacanagem (com o perdão da palavra).

Não há planejamento. Não existe fiscalização. Ninguém é punido ou cobrado por esses casos absurdos de descaso com o dinheiro público. Vemos todos os dias os tributos que pagamos não serem devidamente utilizados, e ainda assim, todo os mesmos dias gasta-se cada vez mais com os “organismos olímpicos”.

Testemunhamos pessoas morrendo em filas de hospitais precários, pessoas sem saneamento básico, moradia, educação ou segurança. E ainda assim, nossos governantes acham que podemos gastar quase 38 bilhões em um evento que irá favorecer uma ínfima minoria.

Por favor. Peço que não me venham falar em “Legado Olímpico”. Só de ouvir essa expressão tenho calafrios! Não haverá nenhuma herança ao povo com a realização dos jogos. Haverá sim uma enorme conta a ser paga, estruturas que não conseguiremos manter, e nenhum beneficio real ao esporte de formação (base).

Respeito meus amigos convocados. Eles não tem culpa. Estão trabalhando naquilo que amam e acreditam: o esporte de alto rendimento. No lugar deles, ainda que triste com tudo isso que citei, estaria motivado para dar meu melhor resultado, pois essa é a função do atleta olímpico!

Entretanto, lá no fundo, dá vergonha… dá medo… dá até um pouco de raiva! E acho que até quem está convocado também pensa um pouco sobre isso… mas tenta se abster, pois a meta do atleta transcende essas questões “sócio-politico-econômicas”.

Claro, não haverá dano ao Espirito Olímpico! Esse é inabalável! Mostra-se impávido e magnífico a despeito de tudo! Afinal, o esporte é MÁGICO!

Contudo, como restará o espírito do povo brasileiro? Ah… esse será ferido como nunca. Pois recairão sobre seus ombros o peso da incompetência e má gestão financeira e esportiva.

Legado? I don’t think so….

About Eduardo Fischer

Eduardo Fischer é catarinense e natural de Joinville. Ex-Atleta Olímpico de natação da seleção brasileira e medalha de bronze no Mundial de Moscou, Fischer defendeu o país em dois Jogos Olímpicos (Sydney/2000 e Atenas/2004), 6 Campeonatos Mundiais e 1 Pan-Americano (Prata e Bronze). Bacharel em Direito e Advogado pela OAB/SC, Eduardo é especialista em Direito Empresarial pela PUC/PR e em Direito Tributário pela LFG/SP. Atualmente aposentado das piscinas, trabalha com Consultoria Tributária em um respeitado escritório de Advocacia (CMMR Advogados).

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