O que aprender com os Britânicos?

Excelente texto de Carlos Júlio:

Benchmarking: o que aprender com a Grã-Bretanha?

Comecemos pelo conceito. O benchmarking é o necessário processo de estudo e investigação em que uma empresa compara seus produtos, processos e práticas com os de concorrentes diretos e organizações com objetivos e tarefas similares.

Trata-se, portanto, de um aprendizado dialético e contínuo, em que a experiência do outro determina parâmetros e padrões. Não se trata de copiar, mas de buscar referências para medir desempenhos, corrigir erros e até mesmo balizar a iniciativa inovadora.

Mas por qual motivo citamos a Grã-Bretanha? Ora, porque ela empolgou o mundo durante a Rio 2016, e não somente pelo impacto dos tênis iluminados de seus atletas, na cerimônia de encerramento, no Maracanã.

Em 1996, em Atlanta, os britânicos obtiveram apenas uma medalha de ouro, somando 15 no total. Terminaram em 36º. lugar no quadro geral competitivo.

Aí, começaram eles próprios a estabelecer comparações com as nações bem sucedidas no esporte olímpico, como os Estados Unidos e a Rússia.

Analisaram sistemas de recrutamento, modelos de preparação e até mesmo a gestão financeira das equipes esportivas. Descobriram onde e quando os rivais erravam. E mapearam também seus acertos.

No ano seguinte, passaram a coletar fundos da loteria nacional, além dos programas públicos de incentivo ao esporte. (onde vai a grana da “loteria esportiva” no Brasil?! ….. Clubes de Futebol???)

Olhando para as experiências de grandes corporações, compreenderam que investimentos exigem retorno. Assim, os times que se apresentaram mal nos jogos de Sydney, na Austrália, tiveram seus recursos reduzidos. Os que registraram bom desempenho ganharam incentivos financeiros adicionais.

O chefão do esporte no Reino Unido, Rod Carr, lembra que o pessoal da ginástica não deu adequado retorno ao país naquela época. Tiveram seu financiamento diminuído e foram obrigados a se reinventar, ou seja, a remontar seus programas.

O rigor pragmático de gestão dos britânicos mostrou-se eficaz. Em 2008, em Pequim, os britânicos cravaram um quarto lugar no quadro de medalhas, com 19 de ouro e 47 no total.

Em casa, em 2012, obtiveram um espetacular terceiro lugar, com 29 medalhas de ouro e 65 no total. No ciclo de quatro anos que antecedeu a Rio 2016, investiram de forma planejada e seletiva o equivalente a US$ 360 milhões.

O resultado foi o esperado. Conquistaram o segundo lugar no quadro geral, apenas atrás dos Estados Unidos. Nas competições, levaram 27 medalhas de ouro e 67 no total.

Um levantamento do jornal Folha de S. Paulo revela que neste ciclo (Londres-2012 até Rio-2016) o Brasil investiu em projetos olímpicos, com verba pública, cerca de R$ 3,68 bilhões. (já fizeste a matemática comparativa na sua mente?! Sim, a palavra que você procura é: que MERDA, onde foi toda essa grana?!)

Consideram-se os aportes do Ministério do Esporte (R$ 2,11 bilhões), Lei Piva (R$ 700 milhões), estatais (R$ 650 milhões) e Forças Armadas (R$ 217 milhões).

A conta final mostra que cada uma das 19 medalhas brasileiras custou, proporcionalmente, quase R$ 194 milhões.

Sim, o Brasil conquistou no Rio seu melhor desempenho em termos de medalhas em uma mesma olimpíada. No entanto não alcançou a meta do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) de ficar entre os dez primeiros no quadro de vencedores.

Não vingou o sonho da conquista de 22 a 29 medalhas. E, assim, o país não passou do 13º. lugar no ranking geral.

Segundo um levantamento do Wall Street Journal, o Brasil foi líder isolado na conquista de “medalhas de chumbo”, aquelas ficticiamente conferidas aos atletas que terminam uma prova no último lugar. Foram 21. O segundo colocado, o Egito, obteve nove dessas incômodas honras.

Ok, fizemos uma bela festa, organizamos cerimônias criativas e nosso povo deu um show de civilidade e de simpatia, seguindo o roteiro da Copa do Mundo de 2014.

No entanto, precisamos aprender também com os erros cometidos. Havia obras do VLT em curso ainda durante a olimpíada, em alguns centros de competição não havia comida suficiente e muita gente perdeu eventos (inclusive jornalistas) por falta de sistemas adequados de informação.

Muitos desses equívocos poderiam ter sido evitados. Afinal, dados comparativos estavam à disposição em Londres, antes mesmo de 2012, quando os ingleses promoveram sua olimpíada. Eles erraram. Eles acertaram. Faltou olhar mais para aquela experiência.

No caso da disputa esportiva, também teria sido importante avaliar com mais atenção a experiência britânica. Talvez tivéssemos preparado melhor aqueles com reais chances de triunfar e teríamos economizado com o chumbo.

Logicamente, todos merecem oportunidades, mas se são escassos os recursos é preciso estabelecer prioridades e montar um plano estratégico para garantir o alto rendimento.

Esse raciocínio vale também para as empresas. Imagine um empreendedor que faz 80% de seu caixa com a comercialização de quibes e esfihas. Será que compensa empregar 50% do orçamento anual no setor de fabricação de sobremesas? Talvez, sim. Talvez, não.

É preciso estudar cada caso, ver como se saíram os concorrentes, analisar os mais bem sucedidos neste mercado específico e, assim, calibrar o planejamento estratégico.

Você não precisa calçar tênis luminosos para vender sua marca, mas pode tirar boas lições de empreendedorismo e gestão com os britânicos. Olho neles!

Afinal, a teoria, na prática, funciona!

About Eduardo Fischer

Eduardo Fischer é catarinense e natural de Joinville. Ex-Atleta Olímpico de natação da seleção brasileira e medalha de bronze no Mundial de Moscou, Fischer defendeu o país em dois Jogos Olímpicos (Sydney/2000 e Atenas/2004), 6 Campeonatos Mundiais e 1 Pan-Americano (Prata e Bronze). Bacharel em Direito e Advogado pela OAB/SC, Eduardo é especialista em Direito Empresarial pela PUC/PR e em Direito Tributário pela LFG/SP. Atualmente aposentado das piscinas, trabalha com Consultoria Tributária em um respeitado escritório de Advocacia (CMMR Advogados).

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