Excelente avaliação de Daniel Takata (como de costume)

Por Daniel Takata, “Torneio Open e como não se montar uma Seleção Brasileira”

“Opinião do companheiro de SporTV e revista Swim Channel, Daniel Takata, sobre os critérios e a Seleção Brasileira para o Mundial de Budapeste em 2017”:

Chegou ao fim ontem o Torneio Open/Campeonato Brasileiro Sênior de natação, em Palhoça-SC, em piscina de 50 metros. O campeonato foi a primeira de duas seletivas para o Campeonato Mundial que ocorrerá no ano que vem, em Budapeste, na Hungria. A última seletiva será o Troféu Maria Lenk no ano que vem.

Em termos de resultados de nível internacional, foi a competição nacional absoluta mais fraca dos últimos anos. Com a ausência de Cesar Cielo, Thiago Pereira e Poliana Okimoto, não tivemos a presença de nenhum medalhista olímpico, algo que não ocorria em uma competição nacional absoluta desde o Troféu José Finkel de 2011. Ressaca olímpica mostrada até por nadadores que não disputaram a Olimpíada. O Minas Tênis Clube, por exemplo, deixou a critério de seus atletas disputarem ou não a competição. E apenas metade da seleção brasileira que disputará o Mundial de Curta no mês que vem, em Windsor, no Canadá, marcou presença em Palhoça.

Destaques

Alguns nadadores se superaram e mostraram marcas interessantes. 48s60 de Gabriel Silva Santos nos 100m livre é sua melhor marca pessoal. Mostrou muita evolução esse ano, foi convocado para o revezamento 4x100m livre olímpico e mostra que veio para ficar. Leonardo de Deus, com 1min56s21 nos 200m borboleta, fez marca até melhor que na Olimpíada. Etiene Medeiros, melhor nadadora do país no feminino e finalista olímpica dos 50m livre, venceu a prova com 24s98 e também fez boa marca ao vencer os 50m costas com 27s79, nono melhor tempo do mundo no ano.

Mas o maior destaque foi, sem dúvida, Brandonn Almeida. Após um desempenho ruim na Olimpíada do Rio, finalmente conseguiu colocar em prática tudo que treinou no último ano. Seu 4min12s49 nos 400m medley melhorou seu 4min14s e teria sido finalista olímpico. Com 3min49s46 nos 400m livre, superou o único recorde sul-americano da competição. Outras duas vitórias vieram, nos 200m costas e 200m medley, ambas com melhores marcas pessoais.

Quem também se recuperou foi Thiago Simon. Após um ano sem nadar bem, após a vitória no Pan de Toronto de 2015, teve bom desempenho no Troféu José Finkel, em setembro, e agora com 2min10s78 chegou perto de sua melhor marca nos 200m peito e, de acordo com a CBDA, fez a melhor marca técnica da competição.

O famigerado índice técnico

Melhor marca técnica? Como o tempo de Simon, que lhe daria a 13ª colocação olímpica, é uma melhor marca técnica que a do eventual finalista Brandonn Almeida? Para a CBDA, é isso que ocorre. E mais: para a CBDA, a marca de Brandonn é pior também que os 100m peito de Pedro Cardona, que com 1min00s46 nos 100m peito ficaria na 23ª posição no Rio de Janeiro.

E onde queremos chegar com isso? Simples. É esse o critério que a CBDA utilizará para convocar a seleção brasileira para o Mundial de Budapeste. Os oito atletas com melhores índices técnicos em provas olímpicas individuais (ou seja, excluem-se 50m borboleta, costas e peito, 800m livre masculino e 1500m livre feminino) do Open e do Troféu Maria Lenk do ano que vem serão convocados. O problema é que o tal índice técnico é baseado em uma tabela elaborada pela FINA, calculada por uma fórmula que avalia o seguinte: quanto mais próximo do recorde mundial ao final do ano anterior (no caso, 2015), melhor o índice. E, como recordes de diferentes provas não necessariamente apresentam o mesmo nível de dificuldade, tal critério tem diversos inconvenientes.

Por exemplo: imagine que uma nadadora, digamos Maria, complete os 800m livre feminino em 8min15s96, e um nadador, digamos José, termine os 200m peito masculino em 2min09s20. Pela tabela da FINA, a convocação da CBDA daria preferência a José, que teria 950 pontos, enquanto a Maria receberia 949. Se ele se colocasse na oitava posição ao fim das seletivas no ranking dos índices técnicos, ela estaria fora do Mundial.

Mas adivinhem: com 8min15s96, Maria teria conquistado a prata olímpica em 2016, e no mínimo o segundo lugar em qualquer competição internacional da história. Com 2min09s20, José não teria chegado à final olímpica no ano passado, e no máximo a um sexto lugar em mundiais e olimpíadas nos últimos cinco anos.

Parece óbvio que Maria teria que ser convocada em detrimento a José. Esse é só um exemplo das inúmeras inconsistências geradas pelo critério utilizado pela CBDA. Como o já citado Pedro Cardona à frente de Brandonn Almeida. A tabela de pontuação da FINA é cheia de falhas, e a CBDA, sem conseguir detectar isso em suas análises, pode cometer injustiças ao convocar a seleção.

No momento, os oito atletas com melhores índices técnicos, em provas olímpicas, e que formariam a seleção brasileira seriam:

1º Thiago Simon 200m peito 2min10s78 915 pontos (ficaria em 12º na Olimpíada)

2º Pedro Cardona 100m peito 1min00s46 904 pontos (ficaria em 23º na Olimpíada)

3º Brandonn Almeida 400m medley 4min12s49 901 pontos (ficaria em 7º na Olimpíada)

4º Gabriel Silva Santos 100m livre 48s60 899 pontos (ficaria em 17º na Olimpíada)

5º Felipe França 100m peito 1min00s65 896 pontos (ficaria em 24º na Olimpíada)

6º Leonardo de Deus 200m borboleta 1min56s21 884 pontos (ficaria em 11º na Olimpíada)

7º Guilherme Guido 100m costas 54s30 875 pontos (ficaria em 21º na Olimpíada)

8º Manuella Lyrio 200m livre 1min58s25 872 pontos (ficaria em 25º na Olimpíada)

(fonte: Best Swimming)

Um critério alternativo, baseado nas distribuições dos 100 melhores tempos da história de cada prova até o final de 2015, alteraria drasticamente a ordem, e refletiria melhor os eventuais desempenhos dos nadadores nos Jogos Olímpicos. Brandonn Almeida seria o primeiro disparado. Etiene Medeiros, que não entrou na lista acima, passa a figurar entre os melhores:

1º Brandonn Almeida (4min12s49 nos 400m medley, ficaria em 7º na Olimpíada)

2º Leonardo de Deus (1min56s21 nos 200m borboleta, ficaria em 11º na Olimpíada)

3º Etiene Medeiros (24s98 nos 50m livre, ficaria em 16º na Olimpíada)

4º Thiago Simon (2min10s78 nos 200m peito, ficaria em 12º na Olimpíada)

5º Pedro Cardona (1min00s46 nos 100m peito, ficaria em 23º na Olimpíada)

6º Gabriel Silva Santos (48s60 nos 100m livre, ficaria em 17º na Olimpíada)

Talvez o critério mude, pois a convocação de apenas oito atletas se dá pelas restrições financeiras. Seria a menor seleção brasileira de natação em um Campeonato Mundial desde 1991. 2017 é ano de eleição na CBDA e uma eventual nova diretoria pode alterar os critérios. O fato é que o que foi escolhido está longe de ser adequado.

Falha grave da CBDA, que ao que parece não se deu ao trabalho de analisar o critério escolhido e optou pelo mais fácil. E menos justo.

About Eduardo Fischer

Eduardo Fischer é catarinense e natural de Joinville. Ex-Atleta Olímpico de natação da seleção brasileira e medalha de bronze no Mundial de Moscou, Fischer defendeu o país em dois Jogos Olímpicos (Sydney/2000 e Atenas/2004), 6 Campeonatos Mundiais e 1 Pan-Americano (Prata e Bronze). Bacharel em Direito e Advogado pela OAB/SC, Eduardo é especialista em Direito Empresarial pela PUC/PR e em Direito Tributário pela LFG/SP. Atualmente aposentado das piscinas, trabalha com Consultoria Tributária em um respeitado escritório de Advocacia (CMMR Advogados).

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