TEM QUE TER PEITO…

Direto do Blog do Takata:

“Você viu o que está acontecendo no Maria Lenk?” Essa era o assunto na comunidade aquática brasileira, há quase exatos quatro anos, no dia 10 de maio de 2008. Não era para menos. Poucos anos antes, o nado de peito era o estilo mais fraco do Brasil. Pois naquele dia, aconteceu o que foi chamada de “prova do século” em competições nacionais. Nunca ninguém havia presenciado algo semelhante.

Não custa relembrar. Até então, o único com índice olímpico nos 100m peito era Henrique Barbosa, com 1:01.27. Na antepenúltima série eliminatória, Eduardo Fischer, veterano de duas Olimpíadas, surpreendeu muita gente ao conseguir o índice com 1:01.47. Primeiro, porque fazia algum tempo que ele não era convocado para seleções brasileiras. Depois, porque dois nadadores de peito com índice olímpico era algo inimaginável até pouco tempo antes. Mas não parou por aí. Na série seguinte, Felipe Lima não só fez índice como melhorou os tempos de Fischer e Barbosa, com 1:01.21. Apenas para ser superado na última série pelo próprio Henrique, com 1:00.79, e por Felipe França, com 1:01.17. Na final da prova, todos pioraram seus tempos e o panorama não foi alterado: Henrique Barbosa e Felipe França foram os representantes brasileiros em Pequim. Mas aquela eliminatória com quatro atletas fazendo índices, um atrás do outro, foi marcante. Impossível ficar indiferente. Quem presenciou jamais esquecerá.

A partir de então, o nado de peito do Brasil só fez evoluir. Novos nomes surgiram e os que já estavam ficaram ainda mais fortes. Por isso, a expectativa era ainda maior para os 100m peito ontem, no Troféu Maria Lenk. Está certo que a prova dificilmente teria o mesmo componente de 2008, afinal, agora, quatro atletas já tinham o índice antes mesmo do Maria Lenk. A briga não seria para fazer índices, e sim fazer o melhor tempo. No final das contas, Felipe França e Felipe Lima se garantiram (59.63 e 1:00.11, ambos feitos na eliminatória).

França tem agora o terceiro tempo do mundo, atrás de dois japoneses, e pode brigar por pódio olímpico. É difícil considerar o que aconteceu nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, pois naquela época o então novo traje Speedo LZR ocasionou uma melhora significante dos tempos. Mas nas duas Olimpíadas anteriores, os favoritos aumentaram seus tempos na final dos 100m peito (em 2000, Ed Moses e Roman Sloudnov ficaram com prata e bronze, e em 2004 Kosuke Kitajima e Brendan Hansen foram ouro e prata, mas todos piorando bem os tempos feitos na mesma temporada). Por isso, não necessariamente é preciso fazer 58 para subir ao pódio em Londres. Logo, Felipe França já tem chances. Se nadar para 58, que é seu objetivo, a medalha estará muito mais perto.

Felipe Lima, por sua vez, fez a prova de sua vida na eliminatória, passando os primeiros 50 metros para seu melhor tempo sem trajes (27.58, contra seu melhor de 27.82 em prova de 50m peito). Se até ontem nenhum brasileiro havia nadado para 59s em trajes têxteis, Lima quase conseguiu fazer companhia a França no clube do sub-minuto. E não faltou emoção em sua jornada rumo a Londres. Em 2008, ele perdeu a vaga para o mesmo Felipe França por quatro centésimos. Agora, ele chegou ao Maria Lenk com o terceiro tempo do Brasil, somente seis centésimos atrás de João Luiz Gomes Junior. Seria cruel ficar fora novamente por tão pouco. O esporte é assim.

Nesse caso, a crueldade virou-se contra João Gomes. Segundo melhor tempo até o Maria Lenk, ele foi ultrapassado por Lima e também por Henrique Barbosa. O sonho olímpico se desfez em um minuto. Mas em 2008, dos quatro protagonistas da “prova do século”, Lima era o único que nunca disputou os Jogos Olímpicos. Agora, carimbou a vaga. Da mesma forma, dos quatro que fizeram índice na prova em 2012, Gomes saiu como sendo o único não-olímpico. Há muitos exemplos de superação nos quais ele pode se inspirar, mas o mais emblemático ele tem em seu rival, em sua prova. Não é exagero e nem clichê dizer que 2016 é logo ali.

NOTA DO FISCHER:

Deixo aqui meus parabéns aos Felipes… Principalmente ao Lima, pois além de ser uma grande pessoa e um grande amigo, soube investir em sua carreira e soube também controlar a ansiedade da adversidade de estar fora do time olímpico até a última seletiva.

Ao João, só posso dizer uma coisa: Bola pra frente! Erga sua cabeça e parta para a próxima. Desistir não é uma opção!

UM ABRAÇO!

FISCHER.

About Eduardo Fischer

Eduardo Fischer é catarinense e natural de Joinville. Ex-Atleta Olímpico de natação da seleção brasileira e medalha de bronze no Mundial de Moscou, Fischer defendeu o país em dois Jogos Olímpicos (Sydney/2000 e Atenas/2004), 6 Campeonatos Mundiais e 1 Pan-Americano (Prata e Bronze). Bacharel em Direito e Advogado pela OAB/SC, Eduardo é especialista em Direito Empresarial pela PUC/PR e em Direito Tributário pela LFG/SP. Atualmente aposentado das piscinas, trabalha com Consultoria Tributária em um respeitado escritório de Advocacia (CMMR Advogados).

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