UM BREVE ENSAIO…

Um breve ensaio sobre o “Brasil Olímpico”
Por Eduardo Fischer, Atleta Olímpico (2000-2004)

Você considera-se uma pessoa patriota? Você sabe o significado da palavra patriotismo? Do Aurélio: “aquele que ama sua pátria”. E quem ama possui um sentimento incondicional que as impele para o que lhes afigura belo, digno ou grandioso. Será que nosso Brasil Olímpico é mesmo digno e grandioso? Tem você, meu companheiro, um amor verdadeiro e incondicional pela sua pátria Brasil durante os Jogos Olímpicos?

É possível demonstrar amor a essa mesma pátria que abandona seus filhos como no caso do judoca Eduardo Santos, que se desmantelou em choro e revelou a todos que não possuía condições financeiras nem mesmo para pagar as taxas e as mensalidades da federação de Judô? Ou o como com o super campeão, medalha de ouro nos 50 metros livre da natação, César Cielo, que teve seu patrocínio cortado a pouco mais de um ano dos Jogos Olímpicos, simplesmente por que decidiu procurar por melhores condições de treino fora do Brasil.

Como posso orgulhar-me da pátria que tem uma das maiores cargas tributárias do mundo, que não mede esforços em cobrar impostos e que arrecada o suficiente para investir alto no Esporte, mas que não consegue nem mesmo dar o básico para seu povo: Saúde e Educação.

Como conseguem os dirigentes e os responsáveis pelo esporte olímpico Brasileiro, após virarem as costas para as necessidades básicas dos atletas olímpicos, sem investirem quase nada na formação de novos atletas, possuírem tamanha “cara-de-pau”, e aparecerem tirando fotos e abraçando os atletas medalhistas como se esses dirigentes fossem, em algum aspecto sequer, responsáveis por esses estupendos resultados.

São os extremos demonstrados em Pequim: o que foi feito pelo nosso amigo judoca, em sua extrema necessidade? Nada! Mas o que se fez por César Cielo, campeão olímpico? Nada também! Isso por que ninguém esperava tamanho resultado desse atleta. Jogaram toda responsabilidade em outro atleta, que da mesma forma nadou MUITO bem, somente não chegou ao pódio. E agora, por isso, é injustamente e infelizmente intitulado de fracasso.

O próprio pai do campeão olímpico César Cielo Filho, Sr. César Cielo, foi taxativo ao afirmar que seu filho não foi e não é produto de nenhum projeto da confederação, e que resultados dele foram todos obtidos graças a muito suor e a ajuda financeira do famoso “PAItrocínio”.

Não sei quanto a vocês, mas eu, quando torço em frente a uma televisão, não torço pela minha pátria, o Brasil. Mas sim pela pessoa, pelo atleta dentro do “fardamento brasileiro”, dando o melhor que ele pode de acordo com as condições que lhe foram oferecidas para realizar seu treinamento.

Não estou dando justificativas para o fraco desempenho geral do Brasil em toda Olimpíada que participa (quase sempre ficando atrás de países como a Argentina), mas estou apenas dizendo que, para mim, não é o Brasil que entra na água, ou na pista, ou no tatame, ou na quadra, etc. Mas sim cada atleta que em sua maioria depende somente dele para preparar-se para essa importantíssima competição, sem ajuda alguma de sua pátria amada. Como poderíamos exigir mais deles? Não podemos…

E sabendo de tudo isso, de todas as dificuldades que os atletas brasileiros sofrem, com falta de incentivo financeiro, entre outras, não posso compreender como o Brasil ainda assim que sediar uma olimpíada. Em um país, onde uma grande parte das escolas públicas não possui condições de comprar sequer material esportivo para seus alunos, o Brasil quer gastar 10 ou 20 bilhões de reais e sediar o maior evento esportivo do mundo, deixando suas instalações abandonadas ao término dos jogos, transformando-se em depósitos de lixo e abrigo para alguns sem-teto, tal qual no último Pan Americano.

Para o nosso comitê, o “auxílio” aos atletas inicia a três meses dos jogos, e atleta que merece ajuda é aquele que está classificado e com chances reais de medalha. Ou seja, como ele vai se virar para ser um olímpico com chance de medalhas é problema dele, não interessa a eles, não é importante. Dessa forma, ficamos jogados a toda sorte, torcendo para que algum atleta com o dom para o esporte tenha força de vontade e condições financeiras para seguir seu caminho esportivo e trazer alegria ao povo brasileiro.

Tá certo, temos o BOLSA ATLETA. Concordo que foi um avanço extraordinário, uma projeto inteligente e uma ajuda muito importante. Nesse aspecto, devo aplaudir no Governo Federal e quem comanda o Bolsa Atleta atualmente, Sr. Djan Madruga (atleta olímpico). É um começo? Sim! Mas sozinho não basta.

Enquanto isso, temos duzentos e pouco atletas em Pequim, mas se contabilizarmos dirigentes e seus respectivos familiares, chegaremos a um número não muito distante desses duzentos e poucos. Estranho? Sim, até demais! Chega a ser irritante…

Como ao final de TODA olimpíada, passaremos três ou quatro meses discutindo todos esses problemas em televisão e em jornais. Todos falaram tudo, prometeram muito, mas na verdade, o tudo que será dito transformar-se-á em nada e as promessas serão, como sempre, somente promessas…

PARABÉNS A CADA ATLETA POR SEUS RESULTADOS!

Pois, infelizmente, o Brasil não fez, não faz e não fará muito por vocês…

About Eduardo Fischer

Eduardo Fischer é catarinense e natural de Joinville. Ex-Atleta Olímpico de natação da seleção brasileira e medalha de bronze no Mundial de Moscou, Fischer defendeu o país em dois Jogos Olímpicos (Sydney/2000 e Atenas/2004), 6 Campeonatos Mundiais e 1 Pan-Americano (Prata e Bronze). Bacharel em Direito e Advogado pela OAB/SC, Eduardo é especialista em Direito Empresarial pela PUC/PR e em Direito Tributário pela LFG/SP. Atualmente aposentado das piscinas, trabalha com Consultoria Tributária em um respeitado escritório de Advocacia (CMMR Advogados).

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